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Pirâmide de Vidro do Louvre

Arquiteto
Prof. FEA/FUMEC

Jane Jacobs e a atualidade da obra Morte e Vida das Grandes Cidades

 

A obra The Death and Life of Great American Cities, publicada em 1961 pela teórica e ativista estadunidense-canadense Jane Jacobs (1916-2006), é considerada um dos textos fundamentais da teoria urbana contemporânea. Escrito como uma crítica contundente ao urbanismo modernista dominante no pós-guerra, o livro questiona os princípios do planejamento funcionalista e defende a complexidade, a diversidade e a vitalidade da vida urbana cotidiana. Jacobs escreveu a partir de sua experiência como moradora do bairro Greenwich Village, em New York City, observando como as ruas, as calçadas e o comércio local produziam uma forma espontânea de organização social e urbana.

Após 65 anos, a atualidade da obra ainda inspira arquitetos, urbanistas, estudantes e sociólogos que investigam os efeitos do crescimento das cidades sobre a vida urbana e sobre as relações humanas.

 

Um ataque ao urbanismo ortodoxo

Já de início, Jacobs ressalta que seu livro é um ataque ao planejamento urbano tradicional, que ela considera incapaz de compreender a complexidade das cidades. Ela critica diretamente os modelos derivados da Le Corbusier e dos urbanistas modernistas, que defendiam superquadras, torres isoladas em parques e separação funcional rígida entre moradia, trabalho e lazer.

Para Jacobs, tais propostas produzem cidades desumanizadas e pouco seguras, que desestimulam o convívio social e o senso de pertencimento. Seu pensamento reflete suas vivências no Greenwich Village, que ao contrário de grandes cidades planejadas, como Brasília, possui quadras curtas, uso misto e intensa presença de pedestres.

 

A calçada

Jacobs introduz o conceito de “olhos da rua” (eyes on the street). A segurança urbana depende da presença constante de pessoas nas ruas: moradores, comerciantes, trabalhadores e pedestres.

Quando as ruas são animadas e ativas, criam-se mecanismos naturais de vigilância coletiva. Jacobs mostra que as calçadas são espaços de interação social informal. Pequenos encontros cotidianos – cumprimentos, conversas rápidas e observação mútua – criam redes de confiança que sustentam a vida comunitária. Um bom exemplo está em North End, bairro histórico de Boston.

 

 O parque de bairro

Jacobs critica parques isolados ou pouco utilizados. Um parque só funciona bem quando está integrado ao cotidiano urbano e cercado por atividades diversas.

Um exemplo muito positivo citado no livro é o Washington Square Park, também localizado em Greenwich Village, New York City, que se mantém ativo graças à intensa circulação de estudantes, moradores e artistas.

 A diversidade urbana

 

A cidade não é um problema simples de engenharia. Ela define as cidades como sistemas de complexidade organizada, onde inúmeras variáveis interagem simultaneamente. Um exemplo é o bairro SoHo, também em New York City, com mistura de comércio, habitação e patrimônio industrial.

Jacobs identifica quatro condições fundamentais para a vitalidade urbana: a mistura de usos principais, a divisão do bairro em quadras curtas, a presença de edifícios de diferentes idades e a alta densidade de pessoas.

Essas condições geram diversidade econômica e social. Os edifícios antigos tornam-se uma boa opção de moradia para classes baixas.

 

 Concentração e densidade

Jacobs argumenta que a densidade urbana é essencial para sustentar comércio, transporte público e vida cultural.

Ela critica o medo da densidade que dominou o planejamento urbano do século XX.

 

A visão de Jacobs torna-se ainda mais lúcida quando ela detecta as ameaças à vitalidade urbana. Bairros vibrantes podem se tornar vítimas do próprio sucesso. A valorização imobiliária pode expulsar atividades tradicionais e reduzir a diversidade social.

Esse fenômeno, hoje, é frequentemente associado ao fenômeno da gentrificação, quando bairros populares ou degradados passam por valorização imobiliária e atraem moradores de maior renda, além de novos investimentos e atividades comerciais voltadas para classes médias e altas. Como consequência, ocorre frequentemente a substituição gradual da população original, que não consegue mais arcar com o aumento dos custos de moradia e de vida no local.

Fronteiras urbanas e “vazios”

Jacobs analisa os efeitos negativos das chamadas “fronteiras urbanas”, como rodovias ou grandes áreas isoladas que interrompem a continuidade da cidade.

Um exemplo emblemático é a Cross Bronx Expressway, uma das mais movimentadas e congestionadas de New York City, cuja construção fragmentou bairros inteiros.

 

A vida e as ameaças de morte

Jacobs enfatiza o papel dos pequenos negócios locais que mantêm a vitalidade urbana. Farmácias, padarias, bares, restaurantes e todo o tipo de pequeno e médio comércio diversificam a economia, atraem circulação de pedestres e fortalecem relações sociais. A valorização imobiliária é uma ameaça também para esses agentes de diversificação.

E aí?

Diante da impossibilidade de aprofundarmos aqui nesta obra essencial da Teoria Urbanística, vale concluirmos com algumas táticas proposta nesse grande Jane jacobs para cidades de todo mundo. Estimulem a diversidade de usos e atividades, preservem os edifícios antigos, equilibrem a densidade urbana, planejem quadras curtas e ruas ativas e se sensibilizem para as práticas sociais.

LAURIE BAKER: UMA COREOGRAFIA DE TIJOLO, LUZ E VENTO

 

Em um século marcado por arranha-céus de vidro e concreto e por uma arquitetura cada vez mais dependente de tecnologia e consumo de energia, o arquiteto Laurie Baker seguiu um caminho oposto — e profundamente revolucionário. Britânico de nascimento e indiano por escolha, Baker tornou-se um dos principais nomes da arquitetura social e sustentável do século XX, defendendo que construir bem não significa construir caro, mas sim construir com inteligência, respeito ao clima e compromisso com as pessoas.

Laurence Wilfred Baker nasceu em 1917, na Inglaterra, e formou-se arquiteto ainda jovem. No entanto, sua trajetória profissional foi interrompida pela Segunda Guerra Mundial, quando atuou como voluntário em missões humanitárias. Esse contato direto com o sofrimento humano e com comunidades pobres teve impacto decisivo em sua visão de mundo. Após a guerra, Baker mudou-se para a Índia, país onde viveu até sua morte, em 2007 e onde desenvolveu quase toda a sua obra.

Na Índia, Baker aproximou-se do pensamento de Mahatma Gandhi, que defendia a simplicidade, a autossuficiência e o uso responsável dos recursos. Esses princípios passaram a orientar sua arquitetura. Em vez de edifícios monumentais, Baker projetou escolas, casas, centros comunitários, hospitais e edifícios públicos acessíveis, sempre atento às condições climáticas locais e às limitações econômicas dos usuários.

Uma arquitetura simples, inteligente e climática

A arquitetura de Laurie Baker é reconhecida por algumas características fundamentais. A primeira delas é o uso intensivo de materiais locais, especialmente o tijolo aparente, utilizado de forma criativa e estrutural. Baker rejeitava o desperdício e desenvolveu soluções construtivas econômicas, como o sistema conhecido como rat-trap bond, que reduz o consumo de tijolos e melhora o desempenho térmico das paredes.

Outro traço marcante de sua obra é a ventilação natural. Em regiões tropicais e úmidas, Baker projetava paredes vazadas, elementos perfurados e aberturas estrategicamente posicionadas, permitindo a circulação constante de ar e reduzindo a necessidade de ventilação artificial. A luz natural também é explorada com cuidado, criando interiores confortáveis e acolhedores.

Formalmente, seus edifícios fogem da rigidez geométrica moderna. Curvas, volumes orgânicos, telhados inclinados e soluções adaptadas ao terreno são frequentes. Mais do que um estilo, trata-se de uma arquitetura ética, que respeita o meio ambiente, valoriza o trabalho artesanal e busca atender necessidades reais, especialmente das populações de baixa renda.

Ao longo de mais de cinco décadas, Laurie Baker projetou centenas de edifícios, principalmente no estado de Kerala. Destacamos a seguir, algumas de suas obras, uma amostra muito pequena da extensa obra desse arquiteto.

Um legado atual e necessário

Laurie Baker foi reconhecido oficialmente na Índia, recebendo importantes honrarias por sua contribuição social e arquitetônica. No entanto, seu maior legado não está nos prêmios, mas na influência duradoura sobre gerações de arquitetos que veem na sua obra uma alternativa concreta ao modelo construtivo predatório e excludente.

Seus arranjos de alvenaria são exemplos de perfeito equilíbrio entre cheios e vazados adaptados ao clima, demonstrando um modo único de leitura do ambiente e aplicação de princípios da arquitetura bioclimática.

Em um mundo que enfrenta crises ambientais, déficit habitacional e desigualdades urbanas profundas, a arquitetura de Laurie Baker permanece atual. Vale lembrar que construir é, antes de tudo, um ato político, social e humano.

 

Cidades-fantasma brasileiras - O caso de Cococi/CE

 

O fenômeno da cidade-fantasma esteve presente, ao longo da história, em todo o mundo. São objetos de curiosidade e investigação, e possuem particulares motivos econômicos, ambientais, políticos ou a exaustão de recursos que justificam sua extinção. Esses cenários bucólicos inspiram a pensar sobre o futuro desses lugares.

O Brasil possui exemplos marcantes, como Biribiri (MG), Xerém Velho (RJ), Velha Mutum (MT), Caiçara (GO) e Cococi (CE).  Aqui, apresenta-se o caso de Cococi, que foi a maior comunidade rural da Capitania do Ceará em 1710 e passou de uma população de 4.064 habitantes em 1960 (IBGE) para 6 pessoas hoje.

 

As cidades-fantasma no Brasil são assentamentos que perderam quase toda a população e deixaram para trás construções abandonadas, traçados urbanos incompletos e vestígios de modos de vida que desapareceram.

Segundo o site journalppc.com, Cococi nasceu como um aglomerado em torno de uma grande fazenda de gado estabelecida no sistema de sesmarias por Francisco Alves Feitosa e sua família no início do século XVIII. Foi concedido a Francisco o título de coronel e 22 sesmarias, equivalente a 30.000 km2. A área desse “feudo” equivalia, acredite, a 3 milhões de campos de futebol.

A apropriação e concentração fundiária nas mãos dos Feitosa impuseram desde cedo uma organização do território orientada pela pecuária. A concessão exigia, em contrapartida, o povoamento, a criação de acesso à água, trilhas de tropeamento, currais e casas-sede que, gradualmente, deram lugar a uma pequena malha urbana concentrada em torno da praça e da igreja. Como muitos núcleos do sertão, a transformação de fazenda para vila e depois para sede municipal refletiu o poder local da família coronelista e a função administrativa associada ao controle de recursos hídricos e rotas de movimentação de gado.

 

Na década de 1950, Cococi Cococi obteve a autonomia político-administrativa e se tornou município. A partir daí, surgiram obras públicas e residências mais expressivas pertencentes a famílias dominantes.

 

O palacete da prefeitura (hoje em ruínas), as residências dos coronéis e o chamado “solar” do Major Feitosa constituíam a arquitetura de prestígio: blocos maciços, fachadas com balaustradas e vãos regulares, elementos decorativos e, em alguns casos, reminiscências de leituras ecléticas que circulavam mesmo no interior. A prefeitura e a Câmara de vereadores eram edifícios anexos ao solar do Major Feitosa.

O declínio de Cococi é múltiplo: secas sucessivas que comprometeram a economia pecuária, a centralização administrativa (reabsorção como distrito por lei estadual em 1965) e episódios locais de má gestão e escândalo político contribuíram para a desmobilização da população e abandono físico. Politicamente, a extinção do município e a saída das famílias dominantes deixaram vácuos institucionais e econômicos que se materializaram no abandono das construções e na perda de manutenção dos equipamentos públicos. O processo é paradigmaticamente sertanejo: o ciclo de boom-local seguido de êxodo transforma a cidade em ruínas, produzindo um patrimônio vernacular de valor histórico, mas fragilizado

O site Aventuras na História registra que hoje, as ruínas que restam permitem reconstruir tipologias: casas térreas alinhadas à rua principal, residências de porte médio com varanda e pátio interno, e edifícios públicos (antiga prefeitura, posto fiscal, hotéis e bares) que se orientavam para a praça. As fachadas, mesmo degradadas, exibem elementos como arcos de vãos, peitoris marcados e pequenas ornamentações, tudo isso adaptado com materiais e técnicas locais. Essas ruínas são um documento essencial para entender como a arquitetura doméstica e pública dialogava com o clima, a economia pecuária e as formas de sociabilidade sertaneja.

 

Essa é uma das  localidades  brasileiras que nos remetem à pergunta: como ativar cidades como essa para que elas possam ter um futuro e não sejam apenas cenários românticos da história?

Cococi merece, inicialmente, um mapeamento e fotogrametria das ruínas para fixar tipologias e técnicas construtivas.

Outra necessidade é a preservação da Igreja matriz e de sua praça como polo de memória e de eventos religiosos que sustentam a identidade local.

Caberia também um Projeto de conservação interpretativa — proposta de micro-museu comunitário – em um dos edifícios públicos recuperáveis, com rotas interpretativas que articulem turismo de memória e economia local (artesanato, guias locais).

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