Construção
INFORME DA
CONSTRUÇÃO E REFORMAS

Luiz Helbert
Arquiteto
Prof. FEA/FUMEC
BUCKMINSTER FULLER: EXPERIMENTALISMO E INOVAÇÃO DO PENSAMENTO ARQUITETÔNICO
Buckminster Fuller (1895–1983) foi uma das figuras mais visionárias do século XX, cuja atuação transcendeu os limites tradicionais da arquitetura. Designer, inventor, engenheiro, filósofo e futurista, Fuller dedicou sua vida a repensar a relação entre tecnologia, recursos naturais e sociedade, propondo soluções radicais para os problemas globais de habitação, mobilidade e sustentabilidade.
Seu conceito mais conhecido, “Spaceship Earth” (Espaçonave Terra) influenciou as gerações que o sucederam e inspirou o evento de mesmo nome, um grande globo no parque Epcot da Walt Disney World Resort, na Flórida. Nascido em Milton, Massachusetts (EUA), Fuller teve uma trajetória acadêmica não convencional.
Foi expulso duas vezes da Universidade Harvard e passou por diversas experiências profissionais antes de encontrar seu verdadeiro propósito. Após experiências diversas e dificuldades pessoais, incluindo a morte de sua filha e um período de crise existencial e alcoolismo, ele decidiu dedicar sua vida a contribuir com a humanidade por meio da ciência, da engenharia e do design.
Ao longo de sua carreira, Fuller desenvolveu uma abordagem interdisciplinar que unia arquitetura, engenharia e ecologia, antecipando debates contemporâneos sobre sustentabilidade. Seu trabalho ficou especialmente conhecido pelas cúpulas geodésicas, estruturas leves, resistentes e eficientes, baseadas em princípios geométricos.
O pensamento de Fuller se fundamenta na ideia de que o planeta Terra funciona como uma nave espacial — conceito conhecido como “Spaceship Earth”. Nesse modelo, os recursos são finitos e devem ser geridos de maneira inteligente e cooperativa. Ele defendia que o design e a tecnologia poderiam resolver grande parte dos problemas sociais, desde que aplicados de forma sistêmica. Sua abordagem ficou conhecida como “design científico abrangente”, integrando conhecimentos de diversas áreas para criar soluções globais.
Entre seus trabalhos, destacamos, a seguir, alguns exemplos.
A casa Domo
A Casa Domo foi projetada por Fuller e construída em 1960, Illinois, para morar com sua mulher, Lady Anne. A Revista Projeto destaca que a casa foi construída em 7 horas, utilizando 60 painéis triangulares em madeira.
Pavilhão de exposição dos EUA para a Expo 67
O Pavilhão dos Estados Unidos na Expo 67 foi um marco arquitetônico. Construído na Ilha Sainte-Hélène, em Montreal, o pavilhão apresentou uma gigantesca cúpula geodésica de aço e acrílico, simbolizando inovação tecnológica e o otimismo da era espacial norte-americana naquele momento. Hoje, o edifício abriga o museu ambiental Biosphère.
Casa Dymaxion
A Dymaxion House é um protótipo de casa pré-fabricada concebido por Fuller na década de 1920. Foi criada para ser leve, eficiente e facilmente montável. Representou uma visão futurista de habitação sustentável e industrializada naquele momento. Um exemplar restaurado está em exibição permanente no Henry Ford Museum, em Michigan, EUA. O sistema Dymaxion tornou-se um conceito integrado aplicado a casas, carros e mapas.
Casa Dymaxion
Utilizando esse sistema, Fuller projetou diversas casas, propondo soluções para problemas comuns em casas convencionais. A ideia era produzir em massa elementos pré-moldados de fácil transporte e rápida construção.
Um protótipo do sistema Dymaxion House
A inventividade de Fuller trouxe também alguns fracassos. Em 1933, por exemplo, ele aplicou o sistema Dymaxion à um veículo experimental em parceria com o escultor Isamu Noguchi. Ele pretendia maximizar a eficiência e a mobilidade através de um design aerodinâmico, com tecnologia inovadora. O veículo possuía três rodas (duas dianteiras motrizes e uma traseira), com capacidade para 12 passageiros. Foi equipado com motor V8 da Ford e podia atingir 120 km/h. Foram construídos três protótipos, mas a reputação do veículo ficou prejudicada devido a um acidente durante as apresentações na Feira Mundial de Chicago.
Dymaxion Car
Buckminster Fuller antecipou muitos dos debates contemporâneos sobre a susten-tabilidade e suas relações com a tecnologia e o design.
No campo da arquitetura, Fuller se assenta em uma cadeira especial, à margem das escolas modernistas do seu tempo. Sua visão particular envolveu arquitetura experimental, design, engenharia estrutural, mecânica e ecologia, criando uma obra singular.
Jane Jacobs e a atualidade da obra Morte e Vida das Grandes Cidades
A obra The Death and Life of Great American Cities, publicada em 1961 pela teórica e ativista estadunidense-canadense Jane Jacobs (1916-2006), é considerada um dos textos fundamentais da teoria urbana contemporânea. Escrito como uma crítica contundente ao urbanismo modernista dominante no pós-guerra, o livro questiona os princípios do planejamento funcionalista e defende a complexidade, a diversidade e a vitalidade da vida urbana cotidiana. Jacobs escreveu a partir de sua experiência como moradora do bairro Greenwich Village, em New York City, observando como as ruas, as calçadas e o comércio local produziam uma forma espontânea de organização social e urbana.
Após 65 anos, a atualidade da obra ainda inspira arquitetos, urbanistas, estudantes e sociólogos que investigam os efeitos do crescimento das cidades sobre a vida urbana e sobre as relações humanas.
Um ataque ao urbanismo ortodoxo
Já de início, Jacobs ressalta que seu livro é um ataque ao planejamento urbano tradicional, que ela considera incapaz de compreender a complexidade das cidades. Ela critica diretamente os modelos derivados da Le Corbusier e dos urbanistas modernistas, que defendiam superquadras, torres isoladas em parques e separação funcional rígida entre moradia, trabalho e lazer.
Para Jacobs, tais propostas produzem cidades desumanizadas e pouco seguras, que desestimulam o convívio social e o senso de pertencimento. Seu pensamento reflete suas vivências no Greenwich Village, que ao contrário de grandes cidades planejadas, como Brasília, possui quadras curtas, uso misto e intensa presença de pedestres.
A calçada
Jacobs introduz o conceito de “olhos da rua” (eyes on the street). A segurança urbana depende da presença constante de pessoas nas ruas: moradores, comerciantes, trabalhadores e pedestres.
Quando as ruas são animadas e ativas, criam-se mecanismos naturais de vigilância coletiva. Jacobs mostra que as calçadas são espaços de interação social informal. Pequenos encontros cotidianos – cumprimentos, conversas rápidas e observação mútua – criam redes de confiança que sustentam a vida comunitária. Um bom exemplo está em North End, bairro histórico de Boston.
O parque de bairro
Jacobs critica parques isolados ou pouco utilizados. Um parque só funciona bem quando está integrado ao cotidiano urbano e cercado por atividades diversas.
Um exemplo muito positivo citado no livro é o Washington Square Park, também localizado em Greenwich Village, New York City, que se mantém ativo graças à intensa circulação de estudantes, moradores e artistas.
A diversidade urbana
A cidade não é um problema simples de engenharia. Ela define as cidades como sistemas de complexidade organizada, onde inúmeras variáveis interagem simultaneamente. Um exemplo é o bairro SoHo, também em New York City, com mistura de comércio, habitação e patrimônio industrial.
Jacobs identifica quatro condições fundamentais para a vitalidade urbana: a mistura de usos principais, a divisão do bairro em quadras curtas, a presença de edifícios de diferentes idades e a alta densidade de pessoas.
Essas condições geram diversidade econômica e social. Os edifícios antigos tornam-se uma boa opção de moradia para classes baixas.
Concentração e densidade
Jacobs argumenta que a densidade urbana é essencial para sustentar comércio, transporte público e vida cultural.
Ela critica o medo da densidade que dominou o planejamento urbano do século XX.
A visão de Jacobs torna-se ainda mais lúcida quando ela detecta as ameaças à vitalidade urbana. Bairros vibrantes podem se tornar vítimas do próprio sucesso. A valorização imobiliária pode expulsar atividades tradicionais e reduzir a diversidade social.
Esse fenômeno, hoje, é frequentemente associado ao fenômeno da gentrificação, quando bairros populares ou degradados passam por valorização imobiliária e atraem moradores de maior renda, além de novos investimentos e atividades comerciais voltadas para classes médias e altas. Como consequência, ocorre frequentemente a substituição gradual da população original, que não consegue mais arcar com o aumento dos custos de moradia e de vida no local.
Fronteiras urbanas e “vazios”
Jacobs analisa os efeitos negativos das chamadas “fronteiras urbanas”, como rodovias ou grandes áreas isoladas que interrompem a continuidade da cidade.
Um exemplo emblemático é a Cross Bronx Expressway, uma das mais movimentadas e congestionadas de New York City, cuja construção fragmentou bairros inteiros.
A vida e as ameaças de morte
Jacobs enfatiza o papel dos pequenos negócios locais que mantêm a vitalidade urbana. Farmácias, padarias, bares, restaurantes e todo o tipo de pequeno e médio comércio diversificam a economia, atraem circulação de pedestres e fortalecem relações sociais. A valorização imobiliária é uma ameaça também para esses agentes de diversificação.
E aí?
Diante da impossibilidade de aprofundarmos aqui nesta obra essencial da Teoria Urbanística, vale concluirmos com algumas táticas proposta nesse grande Jane jacobs para cidades de todo mundo. Estimulem a diversidade de usos e atividades, preservem os edifícios antigos, equilibrem a densidade urbana, planejem quadras curtas e ruas ativas e se sensibilizem para as práticas sociais.
LAURIE BAKER: UMA COREOGRAFIA DE TIJOLO, LUZ E VENTO
Em um século marcado por arranha-céus de vidro e concreto e por uma arquitetura cada vez mais dependente de tecnologia e consumo de energia, o arquiteto Laurie Baker seguiu um caminho oposto — e profundamente revolucionário. Britânico de nascimento e indiano por escolha, Baker tornou-se um dos principais nomes da arquitetura social e sustentável do século XX, defendendo que construir bem não significa construir caro, mas sim construir com inteligência, respeito ao clima e compromisso com as pessoas.
Laurence Wilfred Baker nasceu em 1917, na Inglaterra, e formou-se arquiteto ainda jovem. No entanto, sua trajetória profissional foi interrompida pela Segunda Guerra Mundial, quando atuou como voluntário em missões humanitárias. Esse contato direto com o sofrimento humano e com comunidades pobres teve impacto decisivo em sua visão de mundo. Após a guerra, Baker mudou-se para a Índia, país onde viveu até sua morte, em 2007 e onde desenvolveu quase toda a sua obra.
Na Índia, Baker aproximou-se do pensamento de Mahatma Gandhi, que defendia a simplicidade, a autossuficiência e o uso responsável dos recursos. Esses princípios passaram a orientar sua arquitetura. Em vez de edifícios monumentais, Baker projetou escolas, casas, centros comunitários, hospitais e edifícios públicos acessíveis, sempre atento às condições climáticas locais e às limitações econômicas dos usuários.
Uma arquitetura simples, inteligente e climática
A arquitetura de Laurie Baker é reconhecida por algumas características fundamentais. A primeira delas é o uso intensivo de materiais locais, especialmente o tijolo aparente, utilizado de forma criativa e estrutural. Baker rejeitava o desperdício e desenvolveu soluções construtivas econômicas, como o sistema conhecido como rat-trap bond, que reduz o consumo de tijolos e melhora o desempenho térmico das paredes.
Outro traço marcante de sua obra é a ventilação natural. Em regiões tropicais e úmidas, Baker projetava paredes vazadas, elementos perfurados e aberturas estrategicamente posicionadas, permitindo a circulação constante de ar e reduzindo a necessidade de ventilação artificial. A luz natural também é explorada com cuidado, criando interiores confortáveis e acolhedores.
Formalmente, seus edifícios fogem da rigidez geométrica moderna. Curvas, volumes orgânicos, telhados inclinados e soluções adaptadas ao terreno são frequentes. Mais do que um estilo, trata-se de uma arquitetura ética, que respeita o meio ambiente, valoriza o trabalho artesanal e busca atender necessidades reais, especialmente das populações de baixa renda.
Ao longo de mais de cinco décadas, Laurie Baker projetou centenas de edifícios, principalmente no estado de Kerala. Destacamos a seguir, algumas de suas obras, uma amostra muito pequena da extensa obra desse arquiteto.
Um legado atual e necessário
Laurie Baker foi reconhecido oficialmente na Índia, recebendo importantes honrarias por sua contribuição social e arquitetônica. No entanto, seu maior legado não está nos prêmios, mas na influência duradoura sobre gerações de arquitetos que veem na sua obra uma alternativa concreta ao modelo construtivo predatório e excludente.
Seus arranjos de alvenaria são exemplos de perfeito equilíbrio entre cheios e vazados adaptados ao clima, demonstrando um modo único de leitura do ambiente e aplicação de princípios da arquitetura bioclimática.
Em um mundo que enfrenta crises ambientais, déficit habitacional e desigualdades urbanas profundas, a arquitetura de Laurie Baker permanece atual. Vale lembrar que construir é, antes de tudo, um ato político, social e humano.
Cidades-fantasma brasileiras - O caso de Cococi/CE
O fenômeno da cidade-fantasma esteve presente, ao longo da história, em todo o mundo. São objetos de curiosidade e investigação, e possuem particulares motivos econômicos, ambientais, políticos ou a exaustão de recursos que justificam sua extinção. Esses cenários bucólicos inspiram a pensar sobre o futuro desses lugares.
O Brasil possui exemplos marcantes, como Biribiri (MG), Xerém Velho (RJ), Velha Mutum (MT), Caiçara (GO) e Cococi (CE). Aqui, apresenta-se o caso de Cococi, que foi a maior comunidade rural da Capitania do Ceará em 1710 e passou de uma população de 4.064 habitantes em 1960 (IBGE) para 6 pessoas hoje.
As cidades-fantasma no Brasil são assentamentos que perderam quase toda a população e deixaram para trás construções abandonadas, traçados urbanos incompletos e vestígios de modos de vida que desapareceram.
Segundo o site journalppc.com, Cococi nasceu como um aglomerado em torno de uma grande fazenda de gado estabelecida no sistema de sesmarias por Francisco Alves Feitosa e sua família no início do século XVIII. Foi concedido a Francisco o título de coronel e 22 sesmarias, equivalente a 30.000 km2. A área desse “feudo” equivalia, acredite, a 3 milhões de campos de futebol.
A apropriação e concentração fundiária nas mãos dos Feitosa impuseram desde cedo uma organização do território orientada pela pecuária. A concessão exigia, em contrapartida, o povoamento, a criação de acesso à água, trilhas de tropeamento, currais e casas-sede que, gradualmente, deram lugar a uma pequena malha urbana concentrada em torno da praça e da igreja. Como muitos núcleos do sertão, a transformação de fazenda para vila e depois para sede municipal refletiu o poder local da família coronelista e a função administrativa associada ao controle de recursos hídricos e rotas de movimentação de gado.
Na década de 1950, Cococi Cococi obteve a autonomia político-administrativa e se tornou município. A partir daí, surgiram obras públicas e residências mais expressivas pertencentes a famílias dominantes.
O palacete da prefeitura (hoje em ruínas), as residências dos coronéis e o chamado “solar” do Major Feitosa constituíam a arquitetura de prestígio: blocos maciços, fachadas com balaustradas e vãos regulares, elementos decorativos e, em alguns casos, reminiscências de leituras ecléticas que circulavam mesmo no interior. A prefeitura e a Câmara de vereadores eram edifícios anexos ao solar do Major Feitosa.
O declínio de Cococi é múltiplo: secas sucessivas que comprometeram a economia pecuária, a centralização administrativa (reabsorção como distrito por lei estadual em 1965) e episódios locais de má gestão e escândalo político contribuíram para a desmobilização da população e abandono físico. Politicamente, a extinção do município e a saída das famílias dominantes deixaram vácuos institucionais e econômicos que se materializaram no abandono das construções e na perda de manutenção dos equipamentos públicos. O processo é paradigmaticamente sertanejo: o ciclo de boom-local seguido de êxodo transforma a cidade em ruínas, produzindo um patrimônio vernacular de valor histórico, mas fragilizado
O site Aventuras na História registra que hoje, as ruínas que restam permitem reconstruir tipologias: casas térreas alinhadas à rua principal, residências de porte médio com varanda e pátio interno, e edifícios públicos (antiga prefeitura, posto fiscal, hotéis e bares) que se orientavam para a praça. As fachadas, mesmo degradadas, exibem elementos como arcos de vãos, peitoris marcados e pequenas ornamentações, tudo isso adaptado com materiais e técnicas locais. Essas ruínas são um documento essencial para entender como a arquitetura doméstica e pública dialogava com o clima, a economia pecuária e as formas de sociabilidade sertaneja.
Essa é uma das localidades brasileiras que nos remetem à pergunta: como ativar cidades como essa para que elas possam ter um futuro e não sejam apenas cenários românticos da história?
Cococi merece, inicialmente, um mapeamento e fotogrametria das ruínas para fixar tipologias e técnicas construtivas.
Outra necessidade é a preservação da Igreja matriz e de sua praça como polo de memória e de eventos religiosos que sustentam a identidade local.
Caberia também um Projeto de conservação interpretativa — proposta de micro-museu comunitário – em um dos edifícios públicos recuperáveis, com rotas interpretativas que articulem turismo de memória e economia local (artesanato, guias locais).