top of page
Pirâmide de Vidro do Louvre

Arquiteto
Prof. FEA/FUMEC

Cidades-fantasma brasileiras - O caso de Cococi/CE

 

O fenômeno da cidade-fantasma esteve presente, ao longo da história, em todo o mundo. São objetos de curiosidade e investigação, e possuem particulares motivos econômicos, ambientais, políticos ou a exaustão de recursos que justificam sua extinção. Esses cenários bucólicos inspiram a pensar sobre o futuro desses lugares.

O Brasil possui exemplos marcantes, como Biribiri (MG), Xerém Velho (RJ), Velha Mutum (MT), Caiçara (GO) e Cococi (CE).  Aqui, apresenta-se o caso de Cococi, que foi a maior comunidade rural da Capitania do Ceará em 1710 e passou de uma população de 4.064 habitantes em 1960 (IBGE) para 6 pessoas hoje.

 

As cidades-fantasma no Brasil são assentamentos que perderam quase toda a população e deixaram para trás construções abandonadas, traçados urbanos incompletos e vestígios de modos de vida que desapareceram.

Segundo o site journalppc.com, Cococi nasceu como um aglomerado em torno de uma grande fazenda de gado estabelecida no sistema de sesmarias por Francisco Alves Feitosa e sua família no início do século XVIII. Foi concedido a Francisco o título de coronel e 22 sesmarias, equivalente a 30.000 km2. A área desse “feudo” equivalia, acredite, a 3 milhões de campos de futebol.

A apropriação e concentração fundiária nas mãos dos Feitosa impuseram desde cedo uma organização do território orientada pela pecuária. A concessão exigia, em contrapartida, o povoamento, a criação de acesso à água, trilhas de tropeamento, currais e casas-sede que, gradualmente, deram lugar a uma pequena malha urbana concentrada em torno da praça e da igreja. Como muitos núcleos do sertão, a transformação de fazenda para vila e depois para sede municipal refletiu o poder local da família coronelista e a função administrativa associada ao controle de recursos hídricos e rotas de movimentação de gado.

 

Na década de 1950, Cococi Cococi obteve a autonomia político-administrativa e se tornou município. A partir daí, surgiram obras públicas e residências mais expressivas pertencentes a famílias dominantes.

 

O palacete da prefeitura (hoje em ruínas), as residências dos coronéis e o chamado “solar” do Major Feitosa constituíam a arquitetura de prestígio: blocos maciços, fachadas com balaustradas e vãos regulares, elementos decorativos e, em alguns casos, reminiscências de leituras ecléticas que circulavam mesmo no interior. A prefeitura e a Câmara de vereadores eram edifícios anexos ao solar do Major Feitosa.

O declínio de Cococi é múltiplo: secas sucessivas que comprometeram a economia pecuária, a centralização administrativa (reabsorção como distrito por lei estadual em 1965) e episódios locais de má gestão e escândalo político contribuíram para a desmobilização da população e abandono físico. Politicamente, a extinção do município e a saída das famílias dominantes deixaram vácuos institucionais e econômicos que se materializaram no abandono das construções e na perda de manutenção dos equipamentos públicos. O processo é paradigmaticamente sertanejo: o ciclo de boom-local seguido de êxodo transforma a cidade em ruínas, produzindo um patrimônio vernacular de valor histórico, mas fragilizado

O site Aventuras na História registra que hoje, as ruínas que restam permitem reconstruir tipologias: casas térreas alinhadas à rua principal, residências de porte médio com varanda e pátio interno, e edifícios públicos (antiga prefeitura, posto fiscal, hotéis e bares) que se orientavam para a praça. As fachadas, mesmo degradadas, exibem elementos como arcos de vãos, peitoris marcados e pequenas ornamentações, tudo isso adaptado com materiais e técnicas locais. Essas ruínas são um documento essencial para entender como a arquitetura doméstica e pública dialogava com o clima, a economia pecuária e as formas de sociabilidade sertaneja.

 

Essa é uma das  localidades  brasileiras que nos remetem à pergunta: como ativar cidades como essa para que elas possam ter um futuro e não sejam apenas cenários românticos da história?

Cococi merece, inicialmente, um mapeamento e fotogrametria das ruínas para fixar tipologias e técnicas construtivas.

Outra necessidade é a preservação da Igreja matriz e de sua praça como polo de memória e de eventos religiosos que sustentam a identidade local.

Caberia também um Projeto de conservação interpretativa — proposta de micro-museu comunitário – em um dos edifícios públicos recuperáveis, com rotas interpretativas que articulem turismo de memória e economia local (artesanato, guias locais).

bottom of page