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Dicas de Reforma

Sabrina Schmidt – Engenheira civil e Sócia da Armón Engenharia.

Quarto em reforma

Dicas Concretas:  Tipos de Contrato mais Comuns em Reformas

Quem trabalha com execução de reformas sabe: tão importante quanto um bom projeto e uma boa equipe, é o tipo de contrato que rege aquela obra. Ele define responsabilidades, expectativas, riscos e, principalmente, a relação entre engenheiro e cliente ao longo de todo o processo.

Ao longo da minha trajetória, já trabalhei com diferentes formatos de contrato, ouvi muitos relatos de colegas de profissão e também vivi experiências próximas como “o outro lado da história”, amigos que contrataram reformas e passaram por situações bem delicadas. Hoje, quero compartilhar aqui os três modelos mais comuns que vejo no mercado, com uma visão prática e realista, baseada na vivência de obra.

De forma geral, costumo dividir esses modelos em três formatos: Preço Global, Administração por Percentual e Administração Fixa, que é o modelo que pratico atualmente.

Preço Global:

O nome já diz tudo: no contrato por Preço Global, o valor engloba absolutamente tudo. O engenheiro faz um orçamento completo da obra e fecha um preço único para entregar a reforma pronta.

Eu já trabalhei dessa forma por muitos anos, mas hoje não recomendo, principalmente quando falamos de reformas. O primeiro ponto é o risco de prejuízo. Reforma, diferente de obra nova, envolve muitas incertezas. Sempre existem surpresas e imprevistos, afinal, só descobrimos muita coisa quando começamos a quebrar e executar. Para se proteger, quem trabalha com esse modelo acaba incluindo um fator de risco no valor final.

E aí surge o segundo problema: a obra pode acabar ficando bem mais cara do que realmente precisaria. O cliente paga por um risco que, muitas vezes, nem chega a acontecer.

O terceiro ponto é o desgaste na relação. Se, durante a obra, o cliente pede algo a mais ou diferente do que estava contratado, é necessário cobrar aditivo. Dependendo da frequência, isso começa a gerar desconforto e ruídos na comunicação.

Além disso, existe o risco de aumentos inesperados. Durante a pandemia, por exemplo, tivemos reajustes exorbitantes nos materiais. Em contratos globais em andamento, o prejuízo foi quase certo para quem estava executando.

 

 

Administração por Percentual:

Nesse modelo, o engenheiro cobra um percentual sobre o custo total da obra. Para quem executa, é um formato mais seguro. Para quem contrata, nem sempre.

Imagine a seguinte situação: a cada material que o cliente escolhe, ele já sabe que, além do valor daquele item, ainda haverá um percentual de administração em cima. Isso começa a pesar nas decisões. É muito comum ouvir pensamentos como: “Vou escolher esse porcelanato de 100 reais o metro quadrado mesmo, porque se eu escolher o de 300, a administração vai ficar muito mais cara.”

Outro ponto delicado é o conflito de interesses. Quem faz os orçamentos da obra se beneficia financeiramente se ela ficar mais cara. Mesmo que o profissional seja ético, isso pode gerar desconfiança. Já tive um amigo que passou a fazer todos os orçamentos por fora para conferir se o engenheiro estava sendo honesto. Imagina contratar alguém para ter tranquilidade e acabar tendo o trabalho dobrado porque não confia? Não dá, né?

Administração Fixa:

Por fim, o modelo que pratico há alguns anos e que defendo muito, inclusive recomendando sempre aos nossos mentorados. Para mim, é o formato mais justo e seguro para todas as partes.

Funciona assim: avaliamos os projetos e o escopo da obra, analisamos o trabalho que teremos para administrar aquele processo, o prazo, a distância, os horários de acompanhamento e todas as variáveis envolvidas. A partir disso, apresentamos ao cliente um valor fixo para a gestão completa da obra.

Esse valor é pago em parcelas, conforme definido em contrato. Todos os orçamentos, contratações e decisões passam por nós, mas os custos da obra são pagos diretamente pelo cliente. É fundamental que esse formato seja muito bem-organizado para não gerar confusão ou trabalho excessivo para quem contrata.

Hoje, temos um sistema estruturado de gestão física e financeira da obra, onde o cliente consegue acompanhar tudo e realizar os pagamentos de forma mais simples e transparente.

A principal desvantagem desse modelo é a insegurança inicial do cliente, com medo de gastar mais do que o previsto. Por isso, é essencial fazer um orçamento inicial o mais próximo possível da realidade, que sirva como base. E isso vem com experiência: quanto mais obras executamos, melhor ficamos nessa estimativa.

Também é muito importante deixar claro para o cliente que, nesse formato, ele não paga nada além do justo. O valor e o lucro do engenheiro estão ali, definidos e transparentes. Assim, o maior interesse de quem administra é manter os custos dentro do previsto, garantindo a satisfação do cliente com a obra e com o profissional.

Se você trabalha com reformas ou tem interesse em entrar nessa área, vale analisar com cuidado cada formato de contrato e entender qual faz mais sentido para você. O mais importante é conhecer bem as vantagens e desvantagens de cada modelo e se preparar para minimizar os pontos críticos, garantindo uma relação saudável e transparente com o cliente do início ao fim da obra.

Sabrina Schmidt – Engenheira Civil e sócia da Armón Engenharia.

 

Os 3 maiores problemas que podem inviabilizar uma reforma

Recebemos com frequência projetos lindos no papel, mas que, ao chegarem para execução, revelam uma série de limitações práticas. Eu sempre digo que papel aceita tudo, mas a obra não. Por isso, é essencial que arquitetos e designers que ainda não têm vivência em execução busquem entender as limitações do canteiro e as implicações reais das soluções projetadas.

Quando um projeto é aprovado e o cliente está animado com o que foi proposto, não há nada pior do que, só na hora da execução, descobrir que aquela solução não é viável. A frustração é enorme, e totalmente evitável com mais diálogo entre projeto e obra.

Mas vamos ao que interessa, os três problemas que mais encontramos nas reformas e que, dependendo do caso, podem até inviabilizar a execução:

1. Deslocamento de vaso sanitário.

Esse é o campeão dos problemas. Muitos projetos preveem mudanças no layout do banheiro sem considerar que o vaso sanitário não pode simplesmente ser “mudado de lugar”. Para deslocar esse ponto, muitas vezes é necessário abrir o forro de gesso do vizinho de baixo e refazer a tubulação, o que é um transtorno enorme e, em muitos casos, inaceitável para o cliente.

Em prédios mais antigos, onde há enchimento na laje dos banheiros, o deslocamento pode ser possível sem interferir no vizinho, desde que o novo ponto esteja dentro da antiga área molhada. Se o projeto pedir um vaso em um local sem enchimento, aí não tem solução fácil. Em alguns casos, a alternativa é criar um degrau no piso, elevando o nível para permitir a inclinação necessária da tubulação. Mas tudo isso precisa ser avaliado com antecedência, pois além de ser necessário conferir a viabilidade dessa solução, algumas pessoas não estão dispostas a ter um degrau para entrar no seu banheiro.

 

2. Demolições não permitidas.

Outro erro comum é prever a demolição de paredes sem verificar previamente a estrutura do imóvel. Em apartamentos sem projeto estrutural disponível, só descobrimos no local se a parede é estrutural, se tem uma viga embutida ou mesmo um pilar disfarçado.

Quando isso acontece, o projeto precisa ser revisado, e o sonho do cliente pode ir por água abaixo. Em alguns casos é possível contornar com reforço estrutural, desde que haja envolvimento de um engenheiro calculista. Mas pilares e vigas de edifícios, por exemplo, dificilmente permitem alterações. Por isso, é indispensável que o projetista leve um engenheiro para vistoriar o local antes mesmo de conceber o projeto, principalmente em imóveis antigos ou sem documentação completa.

3. Capacidade elétrica insuficiente.

Esse é um clássico em imóveis antigos. Hoje em dia, temos uma demanda elétrica muito maior do que há décadas. Equipamentos como forno elétrico, cooktop de indução, micro-ondas, ar-condicionado, air fryer e chuveiros potentes exigem uma capacidade elétrica que muitas construções antigas simplesmente não têm.

A solução é abrir um processo de aumento de carga junto à concessionária, no nosso caso, a Cemig. Mas esse processo é demorado, burocrático e tem um custo significativo. Em apartamentos, o problema é ainda mais grave: o aumento de carga precisa ser feito para todo o prédio, o que exige aprovação em assembleia, adequações no padrão coletivo e pode gerar um custo altíssimo, tornando a reforma inviável.

Esses são os três maiores vilões que vemos no dia a dia da execução. E todos eles poderiam ser evitados ou, pelo menos, previstos com antecedência, se o projeto fosse pensado em diálogo com quem executa. A obra não é um lugar de improviso. Quanto mais afinados estiverem o projetista e o executor, melhor para todo mundo, principalmente para o cliente.

 

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